O futuro é criativo!

Pequenos produtores utilizam a economia criativa e coletiva para empreender.

 

Aliado ao empreendedorismo, o mercado artesanal e criativo amapaense vem crescendo bastante com o passar dos anos, em um modelo de negócios diferente do tradicional. Se inspirando na economia criativa, esse artesanato traz questões contemporâneas comuns de sustentabilidade, respeito à natureza, produção lenta e a importância do fazer à mão. A coletividade é palavra chave nesta forma de empreender. Hoje, além da casa do artesão, pioneira na venda coletiva de artesanato, temos outros lugares que fomentam o mercado colaborativo na cidade. Para Lorran Souza, administrador e fundador da Maristo, esses espaços são um ambiente de profusão de ideias e geração de negócios.

O estilo de negócio coletivo permite mais liberdade para os artistas, ressalta Juliana Silvestre, artesã e sócia da Casa Colab, um espaço de vendas de artesanato colaborativo. A loja surgiu com o objetivo de “dar valor ao artesanato que não tinha visibilidade” e hoje conta com 21 colaboradores com seus trabalhos expostos. Para fazer parte da casa, as marcas passam por uma espécie de processo seletivo e os sócios contam com ajuda externa para fazer uma curadoria e ver quais marcas mais se encaixam nas diretrizes do espaço. “Não é preciso ser um artesanato regional e sim um empreendedorismo sustentável, algo feito à mão, que respeite a natureza e o consumidor”.

Juliana Silvestre no cotidiano da Casa. Foto: Reprodução/arquivo pessoal.

Existe hoje um movimento em desenvolvimento de valorização do pequeno produtor. Compro de quem faz é o nome de um projeto criado por uma plataforma online chamada Tanlup que funciona também como uma loja colaborativa. A premissa do movimento é apoiar, divulgar e valorizar práticas sustentáveis, artesãos e artistas criativos e independentes. O empreendedor artesanal encontra hoje um consumidor cada vez mais preocupado com questões sociais e ambientais, que quer saber o que há por trás do produto que compra, o que foi utilizado, qual sua história e quem o fez.

Na Casa Colab, segundo Juliana, todos os produtos são pensados e produzidos com carinho, fornecendo ao cliente a experiência não só da comprar uma mercadoria, mas de levar para casa algo único e feito com amor. É esse carinho que agrega valor a tudo o que é vendido e que faz da casa um lugar tão especial. Há algumas exceções de produtos que não são exatamente produzidos por quem vende, mas tem certificado de produção artesanal, feito por terceiros e até cooperativas, com matéria prima extraída da Amazônia, livres de testes em animais e trabalho escravo.

Alguns produtos da Casa Colab que hoje conta com 21 colaboradores. Foto: Beatriz Belo

Os canudos sustentáveis da marca Égua du Canudo, por exemplo, são produtos industrializados e vendidos na casa, porém Juliana diz que “quando trazemos ele para dentro da casa é com o intuito de menos um lixo, menos um canudo que vai parar num rio, num córrego”.

Além da Casa, outra forma de agregar essas produções todas juntas são em feiras colaborativas. Praças, bares e outros lugares da cidade se tornam espaço de exposição para produtores independentes, promovendo a economia criativa e valorizando a produção local. Ocupar espaços públicos é uma forma de fazer as pessoas se reconectarem com a cidade, permitindo que a cultura apareça também como importante atividade econômica.

O mercado criativo:

O Amapá fechou 2018 como estado com a maior faixa de desemprego do país, com 73 mil pessoas sem trabalho, segundo pesquisas do IBGE. Ao mesmo tempo, um dado publicado também em 2018 pela revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios mostra que o mercado artesanal no Brasil movimenta R$ 50 bilhões por ano e sustenta 10 milhões de pessoas. Para Lorran Souza, a economia criativa, no aspecto econômico, seria a solução mais adequada a médio e curto prazo para o Amapá.

“Temos uma situação de um estado que está afastado geograficamente dos grandes centros urbanos, para que se haja investimentos temos muitas barreiras logísticas, então quando a gente pensa em geração de negócios é muito mais complicado que grandes empresas resolvam investir no Estado montando fábricas, indústrias e por aí vai”, aponta Lorran.

Para Élice e Ricardo, da Bambaré Ateliê, a condição geográfica do Estado vem como ponto positivo quando se pensa no mercado criativo, pois sentem que as pessoas daqui gostam de coisas diferentes por conta da dificuldade de chegada de novidade. Então transformam esse desafio logístico e a curiosidade comum do público sobre a Amazônia em um diferencial competitivo, afinal, cada vez mais pessoas pensam que luxo de verdade não é comprar um produto industrializado, mas algo feito à mão, exclusivo, sustentável e carregado de ancestralidade.

Élice e Ricardo, empreendedores desde a faculdade e hoje comandam a Bambaré Ateliê. Foto: Beatriz Belo

Ricardo nasceu aqui, mas morava em Piracicaba-SP, cidade de Élice. Juntos os dois vieram de São Paulo há poucos meses e hoje veem o artesanato como principal fonte de renda. “É um empreendedorismo por necessidade”, dizem. Após tentarem oportunidades no mercado de trabalho tradicional, decidiram investir no artesanato, em específico a encadernação artesanal, e, apesar das dificuldades, amam o que produzem.

Apesar de não terem crescido no Amapá, seus produtos contam muito sobre a história e cultura do Estado. Na faculdade estudaram sobre comunidades e artesanato quilombola e hoje trazem essa identidade aos cadernos, junto também com símbolos do Maracá e Cunani, que estampam vários de seus produtos. Para eles o mercado é nacional, recebem encomendas de outros estados e falam sobre a importância de agregar a cultura aos produtos: “quando chegar lá alguém vai poder contar uma história, vai poder ver que aquilo veio de tal lugar. É uma forma de fazer parte e de reforçar e propagar a cultura local”

O Estado do Amapá é rico em matéria-prima e gigante em patrimônio cultural e ambiental, tendo um grande potencial para Ecoturismo e Economia Criativa, permitindo experimentações e criação de diversos produtos culturais, visto que 80% da Floresta Amazônica se encontra na Região Norte, por exemplo. Entender suas riquezas e saber aproveitar de forma sustentável o que o Amapá tem a oferecer gera emprego e renda para grande parte da população, fomenta o turismo e reforça a cultura.

Estojos da Bambaré bordados com grafismo Maracá e Cunani. Foto: Reprodução/Instagram.

Mas nem tudo são flores. O empreendedorismo artesanal pode parecer maravilhoso pela autonomia de produção, mas esse novo nicho demanda maior tempo de trabalho e produção. Como a Bambaré é composta somente por dois, a demanda se multiplica, visto que a produção está atrelada diretamente com a renda. Sobre isso eles apontam que “ter um pequeno negócio próprio e que será gerido por uma ou duas pessoas é uma sobrecarga absurda de responsabilidade, já que é necessário ter controle dos gastos, lucros, vendas, prejuízos, produção, compras, divulgação”. Quando há dinheiro investido e uma equipe maior que dois na produção as coisas mudam, “mas a maioria esmagadora no empreendedorismo artesanal se enquadra nesse primeiro caso”, assentam.

Além disso, trabalhar de forma independente, infelizmente, não dá a garantia dos direitos básicos como aposentadoria, plano de saúde e outros auxílios. Durante a entrevista, Élice disse que até um dia doente já atrapalha no processo de produção pois é um dia inativo, sem renda. Analisando suas experiências no artesanato e observando o mercado do empreendedorismo, os dois levantam um contraponto:

“Sabemos da importância do empreendedorismo para sobrevivência de muitas pessoas, até porque também estamos nessa, mas cada vez mais o mercado vem pregando isso de estancar a absurda taxa de desemprego e, principalmente para conseguir forçar que a população trabalhe sem a garantia de direitos básicos”.

Dessa forma, ser visto e estar sempre atualizado é fundamental nesse meio. “Existem instituições muito positivas tipo o Sebrae, por exemplo, que auxiliam muitas pessoas a empreender, mas se você não for uma pessoa que está envolvida com muitas coisas, que não consegue ter uma visão mais ampla e o mínimo de informação, enfim, coisas básicas do mercado, você fica pra trás”, segundo a Bambaré. Os dois entendem que no empreendedorismo é importante estar em todos os lugares para não ser esquecido.

A internet virou uma grande aliada de pequenos produtores. A maior parte das vendas da Bambaré acontece pelas redes sociais. Elas promovem uma experiência diferente ao consumidor, mais íntima e menos invasiva. Hoje se procura o que quer de forma muito mais fácil, existe uma autonomia muito maior em navegar pelas lojas online, analisar, se identificar com a marca. Mas também serve como uma ponte para o ponto fixo na Casa Colab. A comunicação acontece de forma direta com o público, é possível mostrar os produtos, promovendo interação e estimulando quem consome.

Porém, apesar do desenvolvimento desse nicho, ainda há uma outra dificuldade no empreendedorismo artesanal que incomoda os três entrevistados. Ao mesmo tempo que se vê uma grande valorização, muita gente ainda reclama do valor. Juliana, da Casa Colab, conta que percebe um sentimento bastante comum em alguns consumidores: achar que o que é artesanal é mais barato por ser feito à mão, mas ela afirma que é justamente o contrário. Para a Bambaré, “As pessoas ainda estão num processo de valorização de entender que aquilo tem um valor, um trabalho, que não é uma máquina, que não vai ficar igual a todos os outros, enfim”.

Mesmo não sendo tão fácil, os pequenos produtores vão ganhando e fazendo seu próprio espaço. O carinho e empenho do que confeccionam é percebido e sentido em cada produto que é vendido. A produção lenta certifica que tudo é bem pensado, único e feito com amor.

Valorize os artistas locais!

Casa colab: no Instagram – @casacolab_ / Na cidade: Av. Almirante Barroso, 183 – Centro, Macapá, Brazil, 68900041

Bambaré Ateliê: No Instagram – @bambare.atelie / Na cidade: Casa Colab.

/As mais lidas

[pro_ad_display_adzone id=458]
[pro_ad_display_adzone id=463]

FIQUE
 POR DENTRO

Assine e receba as novidades do Amapá por e-mail toda semana. 
Simples, rápido e gratuito.

/Gastronomia

Veja mais

/Cinema

Veja mais